Capítulo 21
Muitas vezes
costumamos desvalorizar a vida, muitas vezes desvalorizamos a nós mesmos. O que
a maioria de nós não sabe, é como tem pessoas com uma vida desgraçada e que
ainda sim a valoriza. Nós só percebemos como somos egoístas e hipócritas quando
estamos prestes a perder a vida. Então valorize enquanto pode, pois quando
perde ou está prestes a perder, não dá mais tempo de voltar atrás. Sua vida é
uma benção. Aceite isso. Não importa se é ferrada ou sofrida. Algumas coisas
vão se desenrolar como se fosse o destino. Se duas pessoas foram feitas para
ficarem juntas, eventualmente acharão uma forma de fazer isso.
E as duas perguntas
que não calavam no local do acidente “ Onde está o motorista do carro?” e “ O
rapaz morreu? Vai morrer?”. Ambas perguntas sem respostas. Se fosse com
qualquer outra pessoa que eu não tivesse proximidade eu estaria apoiando a
todos. Mas era o Matthew. O meu Matthew.
Dentro da
ambulância, eu, Miranda e Matthew. Miranda tinha me abraçado, ela estava
chorando. Eu não estava. Não era o fato de ser sensível, eu normalmente não sou
muito sensível, nem poderia ser, afinal, como dar uma notícia para a família
que o seu paciente morreu, e você está chorando? Não dá certo. Mas sempre que
pessoas ligadas a mim estão assim. Eu choro, e não faço questão de esconder
meus sentimentos. Eu fui fria a vida toda, melhorei a algum tempo, e agora
estou voltando a ser fria.
O Matthew estava
vivo, por enquanto. Ele não está nada bem. Eu também, se não fosse a Miranda
para me segurar, talvez eu já estaria surtando. Mas ela me manteve calma. Assim
que chegamos no hospital, nos separamos dele. Ficamos na sala de espera. Eu
estava com o celular dele, logo liguei para o pai. Ele não demorou para chegar,
afinal, estávamos no mesmo hospital.
- Onde está o
Matthew? – ele perguntou
- Provavelmente
fazendo exames ou se preparando para alguma cirurgia – eu disse – se importa de
fazer a ficha dele?
- Ah, claro que não
– ele disse – foi você quem salvou o meu filho?
- Foi – disse a
Miranda – ela forçou todos a ajudar ela. Ela o manteve acordado. Ela quem deu
motivo pra ele não morrer
- Obrigada – ele
disse e me abraçou. Eu percebi o quanto o Matthew era parecido com o pai. Em
todos os fatores. Era calmo, transmitia calma.
- Eu só fiz o que
deveria ser feito – eu disse
- Não, você fez ele
viver, você será uma ótima cirurgiã, uma ótima médica – ele disse
- Muito obrigada!
Então ele foi fazer
a ficha. Ele ficou no telefone por um bom tempo. O médico veio nos avisar que o
Matthew iria entrar na cirurgia. E que eu poderia assistir. O que eu mais
queria era assistir a uma cirurgia, mas não a do Matthew. Seria como assistir a
minha própria cirurgia. Ofereci essa oportunidade a Miranda.
Logo todos ficaram
sabendo e foram pro hospital. Primeiro me perguntei o motivo de se importarem
com o Matthew, ele não estuda na nossa faculdade. Mas logo me lembrei, o pai
dele é chefe de cirurgia do hospital conveniado com a faculdade. Ele era o
“filho do chefe”.
O Derek chegou para
falar comigo. Eu já tenho até medo de quando ele chega perto, daquela boca só
sai besteira.
- Ei princesa, você
deve estar feliz da vida em? – ele disse
- Feliz? Por que eu estaria feliz? E pare de
me chamar de princesa, que merda, por que você me chama assim?
- Uou, calma, não me
morde não
- Calma? Como eu vou
ter calma se o Matthew está em uma cirurgia, como ter calma se você veio pra
estragar o meu momento calmo?
- É que você
desperta o meu pior lado
- Ah, você também
desperta o meu pior lado, aliás, você desperta o pior lado até da madre Tereza
- Engraçadinha,
então princesa...
- Para de me chamar
de princesa – gritei
- Impossível, princesa
- Você me chama
assim pra me pirraçar ou é o que? Eu
nunca dei motivos pra ninguém me chamar assim!
- Ah não? Você
sempre anda com roupas de marca, sempre anda arrumada, tem uma vida perfeita,
um namorado cheio da grana, mora com os irmãos, é cheia do dinheiro, é famosa
na universidade por ter ajudado aquela mulher, todos gostam de você... – eu não
deixei ele terminar e comecei a chorar.
- Eu não desvalorizo
minha vida, mas não sei como você pode achar ela perfeita. Eu ando com roupas
de marca sim, mas não é por ter dinheiro de sobra, é por já ter comprado há
algum tempo e nunca ter tido coragem de usar. Sempre ando arrumada, porque toda
mulher deve andar assim. Não tenho uma vida perfeita. O Matthew não é meu
namorado e quando eu o conheci não sabia nada a respeito dele. Moro com meus
irmãos porque eu não tenho pais, eles morreram, não sou cheia do dinheiro, é a
herança que eles deixaram pra mim e os meus irmãos. Salvei aquela mulher e
salvaria qualquer outra pessoa pra tirar a culpa de não ter salvo meus pais.
Esse é o verdadeiro motivo pra eu ter escolhido a medicina. Todos gostam de
mim? Ou você quis dizer pena? A maioria sempre acha que eu tenho um irmão
doente e uma irmã ocupada. Então se agora você continuar tendo motivos pra me
chamar de princesa. Fique a vontade. – talvez eu tenha pegado pesado, pois ele
ficou quieto. E calar o Derek era tipo impossível. Ainda sim eu continuei – Ah
e quanto a briga de sábado, obrigada por me defender, mas você me deve
explicações. O que te levou a dizer que eu era sua namorada?
- Eu não disse isso
- Não com essas
palavras
- Eu estava tentando
colocar medo no cara
- Não minta pra mim
Derek, eu sou um detector de mentira
- Você acha que qual
foi o motivo?
- Não importa o que
eu acho, eu quero saber a verdade, nua e crua
- Eu estava querendo
impressionar uma garota
- Ótimo, não me meta
mais em seus casinhos amorosos
- Eu não tenho
casinhos amorosos, eu não namoro ninguém, eu só... fico
- Não importa, dá no
mesmo
- Não dá não
- E por que você
está me explicando isso?
- Porque você era a
garota que eu queria impressionar
E então, minha
respiração parou, bebi um copo d’água, a água desceu pelo lado errado da
garganta e eu comecei a tossir tanto que o barulho da tosse reverberou pelas
paredes da sala de espera. Como se isso não fosse ruim o suficiente o pai do
Matthew chegou.
- Você está bem
Luísa? – ele perguntou enquanto eu não parava de tossir
- Eu... estou –
tossi mais ainda
- Tudo bem, qualquer
coisa eu vou estar por perto
- Me mantenha
atualizada – tossi – sobre o Matthew
- É claro!
Como eu percebi que
o clima ia ficar super pesado depois que o Sr. Taylor saísse, resolvi ir com
ele. A tosse finalmente tinha passado e o Derek apenas observava.
- Sr. Taylor?
- Sim?
- Preciso conversar
com o senhor, tem um minuto?
- Claro
- O Matthew me disse
que a mãe tem Alzheimer, e por isso ele veio pra aqui
- Ele te disse isso?
- Disse
- Ele odeia falar
sobre isso até comigo, ele normalmente não toca no assunto com ninguém!
- Nossa! Então... eu
posso visita-la?
- Você quer visitar
a mãe do Matthew?
- Quero!
- Ninguém nunca
disse isso, as pessoas não gostam das que tem Alzheimer
- É uma pena, elas
são agradáveis, mas nem todos tem o mesmo cuidado
- Acho bom que você pense
assim! Mudando de assunto, era pra você estar assistindo a cirurgia do Matthew
- Foi o senhor que
autorizou?
- Foi sim, por que
não está lá?
- Eu não achei não
seria legal, seria como assistir a minha própria cirurgia, minha amiga foi no
meu lugar
- Pelo visto você é
uma garota muito sábia
- Obrigada – ele ia
sair, quando eu me lembrei do principal motivo de ter ido falar com ele – Sr.
Taylor?
- Pois não
- Já sabem quem foi o motorista que causou – era difícil
dizer – “tudo isso”?
- Estão
investigando, mas o que eu achei estranho foi o fato de não ter testemunhas
- Não tem testemunhas?
- Não, ninguém viu
motorista algum
- Não é possível!
- Aliás, uma mulher
alegou ter visto uma pessoa toda de preto, como rosto coberto, saindo do carro.
Mas a polícia não levou muito a sério, parece que a pessoa que deu essa informação era uma moradora de rua.
Meu chão cedeu. Foi dessa
forma que o Perry descreveu a pessoa que atirou nele. Se fosse mesmo o autor das mensagens, já tinha passado dos
limites. Então eu me toquei, todos os riscos que as pessoas próximas a mim
estavam correndo.
- Acompanhantes de
Matthew Taylor? - Disse uma enfermeira – temos notícias sobre ele!
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