Capítulo 22
Dizem que quando
você tem medo de algo acontecer, aquilo acontece. Normalmente quando eu tenho
medo de algo, ninguém percebe que estou com medo, mas hoje, digamos que era um
dia especial para se ter medo. Eu sempre procuro enfrentar todos os meus medos,
assim, eles não se dão o trabalho de acontecer. Hoje era especial, não para
bom, sim para ruim, é do tipo de surpresa ruim. Você sonha em um dia em que as
coisas vão dar certo e a sua vida vai caminhar pra frente, esquecendo o
passado. Como todos sabem o passado me condena, não é algo que se pode
esquecer, talvez seja impossível esquecer.
Quando estudamos
Medicina, não só aprendemos a fazer procedimentos, estudar o corpo humano. Mas aprendemos
a lidar com os pacientes. E é por isso que contato com pacientes só é permitido
a partir do terceiro ano. Aprendemos que não devemos nos envolver
emocionalmente, então se você acha um médico frio, ele pode não ser frio, ele
apenas não se envolve. Dar uma notícia ruim é uma das primeiras coisas que
aprendemos. Não podemos demonstrar tristeza, sentimento ruim, culpa, nada,
apenas os bons olhos vazios de um cirurgião.
- Dr. Taylor, o seu
filho não está bem – Quando a notícia foi dada, eu pensei que fosse desmaiar.
Sempre aprendemos a neutralizar a notícia para não parecer tão ruim assim
- Seja realista,
diga logo, não neutralize - eu disse
enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, talvez eu já soubesse e não
quisesse ouvir o que ela tinha a dizer
- Dr. Taylor? – ela perguntou,
de certa forma pedindo autorização se podia falar ou não. O Sr. Taylor acenou
que sim. – O Matthew teve complicações na cirurgia, ele quebrou boa parte das
costelas, e algumas delas perfuraram alguns órgãos, vai ser preciso outra
cirurgia, essa que fizemos ocorreram cinco hemorragias, vamos esperar o coração
dele normalizar para que possamos marcar uma nova cirurgia.
- Como assim “vamos esperar o coração dele normalizar...”
? Ele teve uma parada cardíaca? – eu estava histérica, e comecei a gritar
- Ele chegou aqui
mal, e quando foi aplicada a anestesia, foi muito para o coração dele, mas nós
usamos as medidas extremas – eu comecei a chorar, quando avistei a Miranda, sai
correndo.
- Miranda, você viu?
– eu ainda tinha esperanças de que ele estivesse melhor
- Desculpa amiga,
mas eu já não tenho tanta certeza se ele vai sair dessa
A partir daquele
momento, a Miranda, minha única saída, já tinha confirmado que o Matthew estava
morrendo. Eu fiquei lá, parada, em transe. Eu acho que estava voltando o meu
trauma, assim como o Alex. Eu estava ali, mas não estava. No mesmo momento eu
estava presenciando o momento do acidente que matou os meus pais.
O carro tinha capotado, estávamos no
meio do mato, sem ajuda. Meu pai estava preso nas ferragens gritando de dor,
minha mãe não parava de gritar. Eu podia ver que as ferragens estavam todas por
cima do meu pai, todo o peso encima dele, não havia sangue. Já minha mãe estava
gritando, uma barra tinha cortado a perna dela e era possível ver o osso. Eu
estava no mato, eu tinha sido lançada para fora do carro. A Lexie estava com a
mão presa no meio das ferragens. O Alex, junto comigo tinha sido lançado para
fora do carro. Eu corri, e o Alex veio atrás de mim.
- Vão buscar ajuda – minha mãe gritou
- Não posso te deixar mãe – eu gritei
O Alex saiu correndo, era preciso subir
uma colina pois o carro havia capotado e nós estávamos embaixo de algum lugar.
- Mãe, eu tenho que te tirar dai – eu gritava
- Filha, ajude a sua irmã, o Alex foi
buscar ajuda
- Mãe, o Alex vai voltar logo com ajuda
para que possamos te tirar dai
- Luísa, me tira daqui – meu pai
gritava
Enquanto eles apelavam para que eu
pudesse ajuda-los, eu me foquei em ajudar a Lexie, a mão dela estava presa, eu
só não podia fazer nada para ajuda-la. Mas foi destruidor vê-la pegando uma
pedra para tirar a mão. Em um momento a mão dela estava presa, em outro eu só
via sangue. Eu não vi o que ela fez, mas só pelos gritos que ela deu, eu pude
sentir o quanto aquilo doeu pra ela. Eu tirei o meu casaco e enrolei na mão
dela.
- Eu estou morrendo, você não pode
fazer mais nada, eu sinto que estou morrendo, vão ajudar o pai de vocês, eu
sinto muito – ela disse tão devagar pois já não conseguia falar normalmente.
- Você não está morrendo, você vai
viver mãe, vai viver, vai viver para ver seus filhos se formarem, vai viver pra
cuidar de todos nós – eu, ainda inconformada olhava pra ela como se fosse
quebrar.
- Eu já não posso, mas sempre vou ficar
ao seu lado, vou estar na sua formatura, vou ver vocês se tornando as pessoas
que eu sempre quis que fossem – novamente ela falou devagar, eu não queria
admitir, mas ela não estava bem - enquanto a Lexie andava para ficar com o
nosso pai
- Lexie – minha mãe a chamou – Prometa que
vai cuidar de tudo
- Eu prometo mãe
- Não fale como se estivesse morrendo, porque
você não está, você não morre, não hoje – eu me levantei e tentei mover as
ferragens acima dela, por sorte, eu consegui move-la o suficiente para tira-la
dali
Quando eu olhei para a perna dela,
fiquei chocada. Alguns vasos foram rompidos, não parava de sangrar. Era
possível ver o osso e como tinha quebrado. Eu não esperava que estivesse tão
ruim. Rasguei um pedaço da calça dela. Amarrei em torno do ferimento para estancar.
- Fala pro Alex que eu o amo muito, e
que ele deve parar mais de sair com mais de uma garota ao mesmo tempo, ele também
deve sair menos durante a noite, eu fico preocupada, mas diga que ele é um bom
filho, e eu tenho orgulho dele. Avisa pra a Lexie que ela é uma filha adorável,
mas que deve ser mais sentimental. Eu a amo de qualquer jeito. Quanto a você,
eu não tenho o que dizer, minha filha. Eu não queria deixar vocês...
- Mãe, eu não vou falar isso pra ninguém,
porque você não vai morrer
- Você não pode fazer nada, minha perna
está infeccionando
- Lila Stevens, não ouse fechar os
olhos
- Desculpe... eu... eu... amo – então
ela parou de falar
- Eu também te amo mãe – passei a mão
nos olhos dela para que eles se fechassem, ela havia morrido. Observei a Lexie
me olhar e correr para perto de mim. Nós estávamos chorando quando o Alex
chegou
- Nessa estrada não passa... – ele não
chegou a completar a frase, ele viu que a nossa mãe estava morta e ficou
abaixado ao lado dela, chorando.
Nós corremos para perto do nosso pai,
ele estava morrendo, eu iria ficar órfã.
- Ela morreu não foi? – ele perguntou
- Pai... – eu tentei, mas não consegui
- Não minta, eu posso estar morrendo,
mas ainda sou seu pai
- Você não está morrendo pai, não pode
nos deixar sozinhos nesse mundo
- Ela se foi
- Pai, não nos deixe
- Eu já estou indo, você não vê?
- Não pai, fique
-Desculpa, mas eu estou indo ficar com
a Lila
- Amo você – eu disse enquanto ele fechava
os olhos – Nicolas Stevens, você está no meu coração
Eles morreram. Parte de mim havia
morrido. Meus pais estavam longe, mas estavam perto. Não havia motivos para
viver.
De repente eu
acordei, em uma cama, eu não sei onde poderia estar. Acho que era um quarto do
hospital. Tentei me sentar, mas tinha soro na minha mão. Eu realmente estava em
um quarto de hospital, observei ao meu redor. Havia uma garota, eu não a
conhecia. Era branca, tinha cabelos escuros e olhos muito azuis.
- Ei, Bela Adormecida,
pensei que não fosse acordar mais – pelo menos era agradável – onde estão meus
modos? Sou Melissa Taylor, mas pode me chamar de Lissa
- Melissa Taylor? A irmã
do Matthew? A que mora em Washington? – ele uma vez mencionou que tinha uma irmã,
que morava em Washington.
- Meu irmãozinho
querido, já me apresentando não é mesmo? Sou eu sim “A moradora de Washington”. E você deve ser a garota com quem o Matt
anda saindo
- Meu nome é Luísa
Marie Stevens, mas pode me chamar só de Luísa
- Então cunhadinha,
qual é o lance do transtorno pós-traumático? Se quiser conversar...
- Na verdade eu
queria muito conversar com alguém, sem ofensas, mas eu preferia conversar com a
Miranda
- Entendo
cunhadinha, mas eu obriguei ela a ir pra casa dormir, ela ficava andando por
esse hospital como uma barata tonta
- O namorado dela
foi baleado, ela deve ter ido vê-lo
- Então, mas você
dormiu demais, tipo, quase dois dias
- Dois dias? Como...
– ela não esperou eu terminar
- Você recebeu a
notícia sobre o meu irmãozinho, então você ficou parada lá, em transe, quando
eu cheguei você já estava no quarto. A sua amiga ficou doida. O meu pai, disse
que era o seu transtorno pós-traumático e que você estava revivendo a morte dos
seus pais, correto?
- Sim, eu revivi a
morte deles sim. Eu já tinha tido isso antes, mas nunca foi tão forte. Antes
era apenas a imagens deles morrendo enquanto eu estava deitada no chão. Agora
eles conversaram comigo e tudo.
- Interessante,
raramente ocorre isso. Com o seu irmão é assim também?
- Pelo que sei ele
vê apenas as imagens, como um vídeo mudo. E ele não estava presente em todos os
momentos, eu estava.
- Desculpe se estou
tocando muito na sua ferida
- Não se preocupe,
me acostumei
- Você disse que
queria conversar, se quiser eu posso chamar aquela sua amiga
- Não precisa
- Sem querer ser
indelicada, pode me contar como aconteceu?
- Eles morreram em
um acidente de carro, minha mãe com uma infecção na fratura exposta na perna
dela, e meu pai esmagado pelas ferragens
- Nossa, e a sua
irmã, ela também...
- Não, na verdade
ela já deve ter vindo aqui, o nome dela é Alexandra Caroline
- Ah claro,
agradável ela
- E quanto ao
Matthew? Ele está bem?
- Ele está se
recuperando – ela disse recuperando como se fosse algo nojento, que ela queria
longe
- Fale a verdade
- Se ele não se
recuperar, vai ter que ir para os Estados Unidos, lá é mais avançado.
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