Capítulo 6
Eu estava certa, minha irmã, mais conhecida como a parede de
cimento, a parede de ferro, ela tinha sentimentos, ela demonstrou todos eles em
uma conversa em um hospital. Mas foi isso que me motivou a continuar e seguir a
minha vida.
- Lembre-se que eu não vou repetir isso novamente – brincou
ela
- Não será preciso, vou me lembrar disso pelo resto da minha
vida – eu disse, já me virando para ir embora
- Espere! – gritou ela
- O que foi?
Ela me jogou a chave do carro. Ela me deixou dirigir o carro
que ganhamos! Ainda sim eu não tenho licença para dirigir, mas considerando que
estamos passando por medidas extremas, isso é relevante. E não haveria muito
problema, faço dezoito anos dentro de oito meses, a primeira coisa que vou
fazer é tirar a carteira de habilitação.
Eu entrei no carro e percebi que o meu celular estava
descarregando, peguei para ver se a bateria já estava muito baixa ou se daria
para uma ligação, mas então eu recebi uma ligação, não conhecia o numero, mas
era daqui.
- Alô? – perguntei
- Luli! – reconheci, Lucas
- Lucas!
- Ei garota, onde você está?
- No estacionamento do hospital
- Ainda?
- Sim, se fosse por mim ainda estaria lá dentro
- Eu estou aqui no bar em frente a faculdade, quer passar
aqui?
- Tudo bem, mas não posso demorar
Então dirigi até lá. Dirigir é libertador, um bom momento para
pensar. Parei o carro e entrei, Lucas estava no balcão. Eu reconheci algumas
pessoas que foram ao hospital hoje pela manhã.
- Luli! – disse ele enquanto bebia alguma coisa
- Oi
- Você quer alguma coisa? – Ele mostrou o copo
- Não, estou dirigindo, obrigada
- Como está o seu irmão?
- Ele tem um problema cardíaco e depois que recebeu a notícia,
ficou recluso
- Sinto muito! E você o que tem feito?
- Minha vida está na mesma, e você?
- Depois que você se mudou, eu comecei a trabalhar e minha
meia irmã, aquela que era muito amiga da Lexie, começou a fazer medicina, e é
por isso que estou aqui
Conversamos por mais meia hora, ele me contou tudo sobre todos
que eu conhecia de São Paulo, até que eu percebi que já havia passado do
horário que eu tinha estipulado.
- Lucas, me desculpe, mas eu tenho que ir embora, está tarde
- Tudo bem, nos vemos amanhã?
- Claro
Eu saí e fui pra casa. Quando cheguei no estacionamento do
prédio, parei para pensar em como a minha vida não era mais a minha vida. Foi
quando ouvi gritos vindos da rua. Eu sei que não deveria ir lá fora, mas meu
instinto me disse para ir. Corri e saí pela entrada de carros. Na calçada do
outro lado da rua uma mulher estava tendo um ataque de epilepsia e já tinha
três mulheres perto dela sem saber o que fazer.
Eu corri, tirei meu casaco, coloquei embaixo da cabeça da
mulher para ela não ter nenhuma pancada na cabeça enquanto se debatia, virei
ela de lado para que não sufocasse. Enquanto as outras mulheres que estavam
gritando ficaram me observando como se eu fosse de outro mundo.
- o que vocês estão esperando? Liguem logo para uma
ambulância! – gritei. Não percebi o quão alto havia falado pois as três pegaram
o telefone tremendo e ligaram.
A ambulância chegou dentro de cinco minutos, e a mulher ainda
estava tendo convulsões, aquela foi a maior crise epiléptica que eu já vi.
Os paramédicos colocaram ela dentro da ambulância, eu fui
junto com uma das mulheres. No caminho a mulher já tinha estabilizado mas ainda
estava desmaiada.
- Obrigada – disse a mulher que veio comigo
- Por nada
- Se não fosse por você, garota, minha amiga teria morrido.
Nem eu nem minhas outras amigas tínhamos conhecimento sobre esse problema dela.
Não temos nenhuma noção médica
- Eu me senti obrigada a ajudar, e não precisa agradecer, logo
esse será o meu trabalho
- Você é estudante de medicina? Olhe bem, você será uma médica
muito boa. E sim, eu preciso agradecer, você veio como um anjo, se não se
importar, eu te peço que fique até ela acordar
- Não é preciso pedir, eu já iria ficar.
- Eu não entendo como aconteceu, estávamos voltando da igreja
e... – ela não continuou, começou a chorar
Eu a abracei, e ela chorou mais ainda.
- Olhe bem, a epilepsia é algo que não avisa quando vem, é um
problema neurológico, não foi culpa sua nem de ninguém, só aconteceu
- Não, se não fosse você ter ajudado uma estranha, eu só
ficaria gritando junto com as outras, eu poderia ter feito algo, mas não me
passou pela cabeça. Eu sou a mais próxima dela
- Não se culpe, sabe o motivo de eu querer ser médica? Meus
pais morreram em um acidente de carro e eu estava lá com a minha irmã e o meu
irmão. Se eu soubesse como salvar uma vida, eu teria salvado, mas eu não sabia.
Então eu resolvi que vou livrar os outros desse sentimento de culpa, salvando
vidas.
- Nossa, eu sinto muito
- Não sinta, eu não sinto, e nesse momento meu irmão está no
hospital por causa do transtorno pós-traumático dele que desencadeou um
problema cardíaco que destruiu a vida social dele
- E você ainda salva vida de estranhos com todos esses
problemas?
- É o que eu faço para aliviar a pressão, você deve procurar
algo assim
Chegamos e então os paramédicos foram correndo pelo hospital
com médicos ao lado e então mandaram a mulher esperar na sala de espera, mas
não me mandaram.
- Por que eu também não posso esperar? – perguntei
- Porque você vai conosco, você salvou a vida dela, e é
estudante de medicina, poderá acompanhá-la
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