Capítulo 23
- O Matthew vai
embora? – gritei e vi minha pressão aumentar
- Calminha ai, eu
disse, se ele não se recuperar
- Tecnicamente, aqui
no Brasil nós temos recursos o suficiente pra tratar de uma vítima de acidente
de carro
- Digamos que o Matthew
tenha algo mais
- Como assim? Me diz
- Ele vai te contar
quando chegar a hora
- E quando é a hora
Lissa?
- Nem eu sei, mas
vamos fazer logo o que eu vim pra fazer
- O que?
- Talvez o Matt não
tenha dito, mas eu sou psicóloga, especialista em traumas
- Você me parece
tão...
- Nova?
- É
- Eu sei, eu tenho
25 anos, mas me formei cedo, hoje estou fazendo medicina assim como meu
queridinho irmão
- Mas você veio aqui
pra que?
- Pra te ajudar com
o transtorno, bobinha
- Lissa, eu não
quero falar sobre isso
- Tá, não vamos
falar sobre o acidente, me conte sobre os seus pais
- Lissa...
- Qual era a
profissão da sua mãe?
- Ortopedista
- Ora, ora, ora você
pretende seguir o mesmo caminho?
- Só pela parte da
cirurgia, eu prefiro a cardio
- Interessante, e o
seu pai?
- Ele era professor
de universidade
- Que matéria?
- Literatura
- Tá vendo? Você já
está se abrindo Lú, basta relaxar
- Talvez
- Como o acidente
aconteceu?
- Eu... não sei
se... devo
- Não se preocupe,
me veja como uma amiga
- Um caminhoneiro
dormiu ao volante, e invadiu a pista em que estávamos, meu pai tentou desviar
e... capotamos
- Como conseguiram
ajuda?
- Eu não posso
contar essa parte
- Se abra, não é tão
difícil
- Essa parte, só
quem sabe somos eu e meus irmãos
- Nunca contaram pra
ninguém?
- Não
- Então okay
- Eu sinto que devo
te contar, mas... não sai
- Tudo bem, eu
entendo que vocês passaram por muita coisa, não precisa...
- Você sabe guardar
segredo?
- E como...
- Nós ficamos sete
dias na floresta
- Meu Deus Luísa, como
vocês sobreviveram? – eu comecei a chorar
- Eu que cuidei de
todos, não dormi nenhuma noite. De inicio eu pensei que a Lexie ia perder a
mão, e o Alex estava parecendo um recluso, ele já não conversava, era como se o
mundo estivesse parado - eu sequei as
lágrimas do meu rosto – Estávamos muito longe da estrada, eu não poderia
deixa-los para ir pedir ajuda. Todas as noites eu cobria e alimentava o Alex e
refazia os curativos da Lexie e... – eu desabei em lágrimas – e tinham os
bichos, eu pensava que eles queriam a comida, mas eram eles, eles queriam os
corpos dos meus pais – eu não consegui falar mais nada
- Eu sinto muito,
muito mesmo, não tem problema se não conseguir falar, já chega por hoje – eu
pude sentir o quanto ela tinha se sentido culpada por me fazer dizer aquilo.
Mas é tudo uma questão de escolha.
- Não, eu quero
continuar, colocar pra fora tudo isso que eu nunca disse para ninguém, me
pergunte o que quiser
- Como sobreviveu,
no meio do mato durante sete dias? Como vocês saíram de lá?
- Sobraram alguns
restos das nossas malas, eu aproveitei as roupas para nos proteger do frio,
quanto ao alimento, foi sorte. Não, na verdade foi a minha mãe. Ela sempre
levava muita comida quando viajava. A comida ficou intacta. Eu queria muito
poder sair de lá para ir pedir ajuda, mas nós havíamos caído de um lugar muito
alto, então teríamos que andar na direção oposta. Não era possível andar com o
Alex no seu mundinho e com a Lexie com uma ferida aberta na mão. Foi quando eu
tomei coragem e resolvi procurar algo nos destroços do carro, então eu achei
algo tipo um sinalizador. Então conseguimos ajuda.
- Sabe, eu conheci a
Lila, ela era uma pessoa muito boa
- Como assim? Você acabou
de me perguntar qual era a profissão dela...
- Eu estava decidida
a não falar, mas não me segurei. A Lila era minha instrutora. Eu também sinto
muita falta dela
- Eu ainda não
entendi, mas você sempre morou em Washington, como conhecia a minha mãe?
- Eu comecei minha
faculdade de Ortopedia também, só que lá em Washington, mas meu pai disse que
era bom eu fazer contato com algum especialista daqui, foi então que eu conheci
a Lila, ela era muito boa no que fazia.
- Mas você é formada
em Psicologia ou Ortopedia?
- Eu fazia os dois,
quando sua mãe morreu, eu fiquei estudando Psicologia apenas. Estudar a
ortopedia sem a Lila, era como acender uma vela sem o fogo, impossível!
- Você chegou a
conhece-la? Quero dizer, pessoalmente...
- Sim, eu venho pra
o Brasil duas vezes por ano, eu sempre me encontrava com ela
- Lissa?
- Diga
- Seja sincera
comigo, você acha que o Matthew vai precisar ir para os Estados Unidos?
- Eu sinceramente
não sei
- Quando vou poder
sair daqui?
- Acho que ainda
hoje – o celular dela tocou – Eu tenho que sair agora, até mais...
- Tchau
É algo ruim quando
você foca suas forças em alguém ou em algo, pois quando isso não está perto de
você, as suas forças vão embora. Até agora eu tinha depositado todas as minhas
forças na Melissa, então ela se foi, e eu me senti derrotada.
Resolvi pegar o meu
celular, como eu havia dormido durante dois dias, as notícias correm. Liguei
para a Lexie.
- Ai que bom que
você acordou – dessa vez eu senti alegria na voz dela
- Então, como vão as
coisas?
- Na mesma. Eu
fiquei ontem o dia todo com você
- Obrigada – a
emoção me tomou e eu senti vontade de chorar – Ai meu Deus, e a “namorada” do
Alex?
- Remarcamos para
Sexta
- Que bom
- Ah, eu quase ia me
esquecendo, o Lucas ligou pra aqui
- O Lucas? – me toquei
de quanto tempo eu já não via o Lucas.
- Sim, nós
conversamos bastante
- Você e o Lucas?
- Sim, parece que você
está na lua!
- Eu na lua?
- Você repete cada
coisa que eu falo
- Deixa pra lá...
Então o que o Lucas disse?
- Ele pediu pra você
ligar pra ele
- Tudo bem
- Eu estou indo pra
casa agora, mais tarde eu vou ai te ver
- Tudo bem – ela desligou
As pessoas mudam
muito, eu me lembro de como eu e o Lucas éramos próximos. Hoje ele fica com o
clubinho de seguidoras dele. Não tenho nada contra. Talvez. Mas eu gostaria
mesmo que ele voltasse a ser como antes.
Então eu comecei a
me lembrar de como as pessoas próximas a mim eram no passado.
A Minha mãe, era uma
bela cirurgiã, estava indicada para todos os prêmios de cirurgia ortopédica.
Ela passava pouco tempo em casa. Não acho que ela foi uma mãe ruim, acho apenas
que ela deveria nos dar mais atenção. Quem nos criou foi o meu pai, minha tia e
minha avó. Ainda sim, minha mãe era o tipo de heroína que eu queria ser quando
crescer. O trabalho dela era tão focado, que no meu aniversário de cinco anos,
ela me deu a boneca Jane anatômica, Jane tinha 24 peças removíveis e coloridas,
e eu, quando criança, criei nomes para os pedaços, já que eu não tinha ideia dos
nomes verdadeiros. Eu sempre levava essa boneca para o hospital quando minha
mãe tinha que trabalhar e me levava junto. Como eu era muito sozinha, levava a
Jane anatômica pra brincar comigo. Essa boneca é a lembrança mais fiel que
tenho dela. E quando ela morreu, eu não senti ela no caixão, eu a sinto no
hospital, o lugar dela e agora o meu.
A Lexie, sempre foi a
filha perfeita, a garota exemplar, inteligente e competitiva. Sempre estava em
primeiro lugar em tudo. Nós não éramos nada próximas. Na verdade ela era muito
focada nos estudos e nunca tinha tempo para mais nada. Mas eu sempre me
espelhei nela quanto aos estudos. Talvez tenha sido algo bom. Ela sempre foi
fria e distante, isso não mudou, ela continua fria e distante.
O Alex foi o que
mais mudou. Ele era punk, estilo bad boy, sempre foi o galã do seu colégio. Saía
todos os dias e só chegava de madrugada em casa. Ele namorava mais de duas
garotas ao mesmo tempo. Elas disputavam ele. A marca registrada dele era a jaqueta
de couro e a moto. E hoje... simplesmente acabou.
Meu pai, era um
Professor de Literatura na universidade. Ele era muito inteligente. Ele quem me
ensinou muitas das coisas que sou hoje. Eu me identificava com a personalidade
dele. Éramos muito parecidos. Algo que me lembrava ele, eram os livros. Quando
ele morreu, eu fui para o escritório dele na casa em que morávamos e fiquei lá
durante cinco dias. Lá era o santuário dele. O lugar que eu senti a presença
dele. E uma vez ele me disse que a igreja dele eram os livros, e quando eu
perguntei o motivo, ele disse – Os livros são neutros, com os livros não se tem
disputa, não se tem confusão, porque ao mesmo tempo que é tudo, é apenas um
livro. Eu gosto muito de ler, dessa forma eu entro no mundo do meu pai. Ele
sempre recitava versos de livros e poemas. Eu sempre vou me lembrar dele assim.
E eu... eu era a
filha solitária. Isso me levou a ser uma das garotas mais insuportáveis do colégio.
Eu era solitária porque, minha irmã não tinha tempo pra mim e meu irmão me
achava uma idiota. A única pessoa que me aturava era a Miranda. Então eu sempre
acredito que, se uma pessoa foi feita para estar com outra, nada vai
interferir. A Miranda foi feita para ser minha amiga, e sempre será a minha
amiga, mais do que isso, a minha pessoa.
Havia épocas em que
meus irmãos me excluíam tanto, que era preciso ir para o hospital com minha
mãe, só para não arrumar confusão. Eu ia para o hospital desde os meus cinco
anos e acabei gostando.
Eu descontava toda a
minha raiva esnobando as pessoas, sendo rude, fria e áspera. Eu não ligava para
os sentimentos de ninguém. Só importava que todos se sentissem como eu me
sentia. Todos pareciam me amar. Mas a verdade é que tinham medo de mim.
Uma vez uma garota
me disse:
- Não pode fazer as
pessoas te amarem
Então eu respondi
algo que eu levo em conta até hoje
- Mas pode faze-las
teme-la
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