Capítulo 28
Quando eu era
pequena, amava brincar de príncipe e princesa, e todas as brincadeiras sempre
tinham o mesmo final, o Príncipe se casa com a Princesa e eles são felizes para
sempre morando em seu lindo castelo. Mas isso é algo impossível, as crianças
estão todas iludidas.
Todos nos lembramos
das historinhas de nossa infância: o sapato serve na Cinderela, o sapo vira um
príncipe, a Bela Adormecida é acordada por um beijo… Era uma vez… e eles
viveram felizes para sempre. Contos de Fadas – é do que sonhos são feitos. O
problema é que contos de fadas não se tornam realidade. São as outras
histórias, as que começam com noites sombrias e tempestuosas, que terminam de
formas indescritíveis… Sempre são os pesadelos que parecem se tornar realidade…
principalmente se inclui você ter um aneurisma cerebral.
Já estava de pé
quando o Sol nasceu, vesti minha roupa e decidi descer para tomar um café,
apesar de não conhecer nada naquela casa, eu pude supor onde seria a cozinha. Desci a
escada enquanto cantarolava.
So wake me up when
it's all over (Então acorde-me quando tudo estiver acabado)
When I'm wiser and
I'm older ( Quando eu for mais sábio e
mais velho)
All this time I was
finding myself ( Todo esse tempo eu estava procurando por mim mesmo)
And I didn't know I
was lost ( E eu não sabia que estava perdido)
Quando cheguei na
cozinha, a mesa estava posta, eu achei estranho já que não vi ninguém, deve ter
sido a tal Lucinda que o Matthew mencionou. Nem me importei de comer antes dos
outros, eu realmente estava com muita fome, já que não havia comido nada na
noite anterior.
Peguei uma xícara de
café e me sentei na varanda dos fundos, fiquei por um tempo ali apreciando o
vento balançar as folhas das arvores e naquele momento eu senti que poderia
fazer tudo o que quisesse.
- Você quer me matar
de susto – me virei, o Matthew estava histérico
- Calma, o que foi?
- O que foi? Já
pensou se você passa mal e eu estou dormindo? Você sabe que eu surtei quando eu não vi você do meu lado na cama?
- Me desculpa, eu só
precisava tomar um café e pensar – eu me levantei e cheguei perto dele, senti
que ele estava ofegante – me desculpe – eu disse e coloquei as mãos em seu
peito e senti sua respiração voltar ao normal, mas seus batimentos cardíacos
ainda estavam rápidos
- Só não faça isso
de novo, se acontecesse alguma coisa com você eu não iria me perdoar – senti em
seu tom de voz uma sensação de medo – ou se meu pai te visse sozinha, ele iria
suspender a sua recuperação em casa
- Eu prometo que
isso não vai mais acontecer – ele me abraçou
- Então, vejo que já
conheceu a Lucinda – ele disse tentando mudar de assunto e apontando para minha
xícara de café
- Não, a mesa estava
posta, mas não tinha ninguém na cozinha – senti seu olhar mudar – o que foi?
- Ela nunca sai da
cozinha, ainda mais agora que você está aqui, ela sempre acorda cedo
- Calma Matthew, ela
deve ter ido no banheiro, ou não sei, comprar algo
- Lú, eu conheço a
Lucinda desde quando eu nasci, isso não é normal, acho que devemos ver onde ela
está
- Tudo bem, mas eu
acho que você está fazendo drama – ele revirou os olhos e fez um sinal para que
eu o seguisse
* * *
- Luci? Lucinda? – o
Matthew chamava por ela
- Eu acho que ela
não está aqui
- Impossível, ela
nunca sairia sem me avisar – ele estava indignado
- Eu não sei, você a
conhece melhor do que eu, pra onde ela pode ter ido?
- Eu não tenho ideia
– então senti a minha garganta secar
- Onde tem água? Minha
garganta está muito seca
- Ah, esqueci de te
avisar, esse é um dos sintomas, atrás daquele balcão tem um bebedouro – caminhei até lá enquanto vi o
Matthew indo para o quarto da Lucinda procura-la
Meu coração parou no
momento em que eu vi um corpo caído no chão, era a Lucinda, eu senti todo o meu
corpo enrijecer, comecei a gritar – MATTHEW, SOCORRO,MATTHEW – ele veio
correndo e quando viu o corpo da Lucinda no chão, eles desabou e se ajoelhou ao
lado dela
- Lucinda, eu senti
que você não estava bem, eu senti – ele dizia como se ela fosse a mãe dele, o
carinho que ele transmitia, o afeto, se transformaram em dor
Eu peguei o meu
celular e liguei para a emergência. O Matthew parecia uma criancinha ao lado da
Lucinda. Então eu verifiquei a pulsação dela, estava fraca, mas pelo menos
existia. Tomei todas as medidas para manter a pulsação dela. Ela
continuou inconsciente até os paramédicos chegarem. Eles perguntam se tem algum
parente pra ir com ela ao hospital, o Matthew disse que ele era o único. Algo
que achei estranho já que ela era a governanta. Fomos eu e ele dentro da
ambulância. Passamos a tarde no hospital, sem notícias. O Matthew enterrou o
rosto no meu colo, eu sabia que ele estava chorando, só não queria admitir.
Lentamente eu passava os dedos entre os fios de cabelo dele. O pai dele estava
participando de um congresso e a Melissa tinha voltado para Washington para
resolver alguns problemas. Éramos só nós dois.
Finalmente aparece um médico, ele parece conhecer o Matthew
assim que ele levanta a cabeça.
- Matthew Taylor – ele cumprimenta o Matt, acho que
todos naquele hospital idolatram ele só por ele ser o filho do chefe
- Dr. Alan – o Matthew cumprimenta de volta. O seu
rosto está vermelho, ele realmente estava chorando
- Vocês são a família da Lucinda Johnson? – ele pergunta
- Ela não tem família, eu sou a família dela – o Matthew
responde
- Bem, sendo assim, acho que posso dará notícia, ela
teve um Acidente Vascular Cerebral e teve uma laceração no crânio com a queda –
o Matthew me abraçou e dessa vez eu vi as suas lágrimas e resolvi substitui-lo
na conversa.
- Quando vamos poder vê-la? – eu perguntei
- Ela está na UTI, por enquanto a visita não foi
liberada, se vocês quiserem, podem ir para casa, eu aviso assim que tiver
notícias dela
- Não vamos sair daqui – o Matthew sussurrou em meu
ouvido
- Matthew, vai dar a mesma coisa, vamos pra casa, e
depois voltamos – eu disse
- Tudo bem
Quando saímos, o Sol estava a se pôr, pegamos um táxi
de volta para a casa do Matthew. Mas então eu me lembrei. O jantar da Lexie!
- Meu bem, eu sei que você está muito abalado, mas é
que a Lexie nos convidou para ir pra um jantar lá em casa, um jantar de casais.
Eu não me importo se você não for, mas eu devo ir
- Sem problemas eu vou também, vai ser um bom momento
pra descontrair, pelo menos eu vou parar de pensar na Lucinda
- O que a Lucinda era sua? Você parece muito ligado a
ela
- Desde que eu nasci, a Lucinda cuida de mim, ela é
minha segunda mãe, eu acredito que passei mais tempo com ela do que com a minha
própria mãe – então eu me lembrei, a mãe dele, o Alzheimer
- Matt?
- Oi?
- Onde sua mãe está? – ele hesitou em responder
- Em uma casa de repouso – como assim? Como colocar a
própria mãe em uma casa de repouso?
- Você não foi capaz disso!
- Eu não, mas foi a única alternativa que o meu pai
achou, ela quase colocou fogo na casa um dia
- E dai? Ela é sua mãe, ela cuidou de você quando era
pequeno, obrigação de vocês é cuidar dela
- As coisas não são tão fáceis como parecem, e fácil
falar
- Fácil falar? Como se eu não tivesse problemas
- Vamos esquecer isso, eu não quero brigar
- Amanhã, você vai me levar para ver ela, tudo bem?
- Eu não sei
- Matthew...
- Tudo bem, vamos logo senão vamos nos atrasar para
o jantar da Lexie
Era uma vez… Felizes
para sempre… As histórias que contamos são feitas de sonho. Contos de fadas não
se tornam realidade. A realidade é muito mais agitada… muito mais turva… muito
mais assustadora.

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