Hoje foi um longo dia, um dia estendido, mas não importa o
quão longo seja ele, o dia sempre irá se renovar, e quando menos esperarmos,
ele recomeça, não importa o que
dissermos, na maioria das vezes ele será a mesma coisa.
Derek abalou a minha consciência, e por pior que aparente,
ele estava correto, eu sou tudo aquilo que ele disse e um pouco mais. Eu nunca
precisei me esforçar pra ter o que eu quis. Meus pais sempre tiveram dinheiro,
uma famosa cirurgiã ortopedista e um renomado professor de literatura.
Enquanto dirigia pra casa, esses pensamentos não saiam da
minha cabeça. Liguei o som, mas a música que começou a tocar, me lembrou o
Matthew, e não adiantou, só serviu para me deixar cada vez mais para baixo.
Então eu peguei o meu celular para ligar para a Miranda, mas então percebi o
horário, quatro horas da manhã. Perdi
totalmente a noção do tempo.
Assim que cheguei em casa, a Lexie estava andando de um lado
para o outro com um telefone na mão, e então me mundo desabou, o Matthew estava
sentado no sofá da minha casa, com o rosto enterrado nas mãos.
- Você que me matar de preocupação? Eu estava quase chamando
a policia – a Lexie gritou em um tom firme. Mas eu não me importei com o que
ela disse.
- Matthew? O que você está fazendo aqui? – Ele ergueu os
olhos em minha direção.
- Eu estou falando com você sabia? – a Lexie disse
aparecendo em minha frente, quebrando a minha ligação de olhares com o Matthew.
- Eu estou bem, estou viva e estou na sua frente – eu falei
enquanto tirava ela da minha frente. Matthew se levantou e me envolveu em seus
braços – O que você está fazendo aqui? – Eu tentei me soltar, mas aquilo era
muito bom.
- Eu fiz um acordo com o meu pai, se não se lembra, eu te
tirei daquele hospital prometendo que você não sairia do meu lado, eu não vou
te abandonar. Eu já fui muito irresponsável, mas você me fez repensar o meu
modo de agir. Então, não tente manter distância, você ainda está em
recuperação, deve ficar de repouso e não pode dirigir. Por favor, não me faça
ficar tão preocupado com você novamente – todas aquelas palavras tocaram o meu
coração, eu fiquei tentada a beija-lo, mas recuei assim que percebi o que iria
fazer.
- E a Lucinda?
- Ela está viva, acredito que ficará bem.
- Tudo bem, vocês estão se acertando, mas deixem isso para
depois, o que importa agora é encontrar o Alex – a Lexie disse, novamente,
atrapalhando seja lá o que for que estava acontecendo entre eu e o Matthew
- Como assim? – eu fiquei fora a noite toda, e realmente não
fazia ideia do que estava acontecendo.
- Seu irmão saiu desde aquela hora e ainda não deu notícias
– o Matthew disse, de uma forma que tentou me acalmar, porém, falhou.
- Não acredito, vocês tentaram ligar para o telefone dele? - a pergunta mais idiota que eu pude fazer
- Sim, mas ele conhece o meu numero, então não atendeu – a
Lexie se sentou – Ele está se autodestruindo.
- Tente ligar do meu – o Matthew ofereceu seu celular. Eu
peguei
- Eu vou fingir que não estamos preocupados, espero que ele
atenda – eu disse enquanto discava o numero.
- Alô? – Ele atendeu no segundo toque
- Alex, é a Luísa
- O que você quer?
- Eu queria saber se você está em casa, eu acabei perdendo a
hora aqui na casa do Matthew... – ele me interrompeu
- Eu não estou em casa
- Você está onde?
- Na casa de um amigo
- Que amigo?
- Virou interrogatório? Olha só, você não é minha mãe pra se
achar no direito de me controlar, vê se me esquece – ele desligou o telefone
- Você está bem? – o Matthew me perguntou, eu apenas acenei
que sim e fui para o meu quarto.
O tempo estava frio, minha pele estava pálida, eu estava com
frio. Peguei algumas roupas ara tomar um banho. Tirei os sapatos, e caminhei
para o banheiro. Antes que eu pudesse entrar no banheiro, alguém bateu na
porta.
- Entre!
- Desculpa – o Matthew disse assim que percebeu que eu
estava indo tomar um banho – Posso voltar mais tarde.
- Sem problemas, o que você quer?
- Nós precisamos conversar – seu olhar se desviava para
todos os cantos do quarto, menos para o meu corpo.
- Você tem medo que eu morra?
- O que?
- Nós somos namorados, e você... tem um certo tipo de medo
de me olhar
- Somos?
- Éramos – corrigi
- Eu não tenho medo que você morra, você não vai morrer
- Não pode ter tanta certeza
- Mas posso cuidar para que isso não aconteça. – ele
respirou tentando ganhar tempo - Nós precisamos conversar sobre o aneurisma.
- O que?
- Meu pai quer fazer alguns exames, ele quer conversar com
você
- Diga o que ele quer dizer
- Não sei
- Você sabe, e por isso está tão sério
- Eu realmente não sei, mas esse não é o verdadeiro motivo
da conversa
- Não? – eu fechei a porta do banheiro
- Não, eu não quero que existam segredos entre nós, eu quero
te contar sobre o meu passado. – eu fiquei tão chocada, que me sentei .
- Comece!
- Quando meu pai se mudou para o Brasil, eu fiquei sozinho
com a Lucinda. Fiquei solitário demais, então comecei a ir para festas, e como
em todas as festas de adolescentes, tinha muita bebida e o pior, tinha muita
droga. Eu e meus amigos bebíamos muito, meu dinheiro era somente dedicado a
vodka, energéticos para me manter acordado, e muitas ervas. Todas as madrugadas
eu chegava em casa literalmente chapado. A Lucinda sabia o motivo, e ainda sim,
ela cuidava de mim. Algumas vezes fui preso por dirigir bêbado, mas todos me
liberavam quando descobriam que eu era filho de Adam Taylor. Lá, ele é
idolatrado, eu era o tipo de cara imprudente, filhinho de papai e tudo desse
tipo. Mas, tudo o que eu queria, era atenção. Meu pai nunca teve tempo pra mim.
Por favor, eu resolvi ser sincero com você, portanto, não me julgue, é a única
coisa que eu lhe peço. – ao terminar, ele estava exausto, acho que, relembrar
tudo aquilo, era doloroso.
- Eu não sou do tipo que julga as pessoas. Não tem motivo
pra isso. Eu também tive uma adolescência um tanto turbulenta. Eu nem sei o que
dizer, é meio que impossível imaginar você dessa maneira – foi a única coisa
que saiu da minha boca.
- Sabe o verdadeiro motivo da minha vinda ao Brasil? O
motivo de ter largado tudo lá?
- O que?
- Mudança. Eu vim apenas para passar alguns dias, mas
você... você mudou o meu jeito de pensar. Pela primeira vez eu conheci alguém
como você, que mesmo sem saber quem sou, gostou de mim. Você é diferente de
todas as garotas que eu conheci, e pense, eu já conheci muitas. Você é
especial, você é batalhadora e digna de respeito. Uma vez, eu tive uma
namorada, o nome dela era Ellen, e o que eu fiz com ela foi imperdoável, por
isso eu tenho medo de que eu faça isso com você, então, eu mantenho distância.
- Matthew, eu nem sei o que dizer, eu me sinto agradecida
por essas doces palavras.
- Então, eu quero o seu perdão, eu preciso que você me
perdoe. O meu erro não faz de mim um idiota que vai te perder tão fácil, faz de
mim um ser humano, e todo ser humano está sujeito a cometer erros.
- Todos nós fizemos coisas pelas quais não nos orgulhamos.
Será que contar o seu passado sombrio e pedir desculpas pode mesmo curar nossas
feridas? Será que arrependimento é o suficiente?
- Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu, foi somente
uma vez, e eu me sinto arrependido desde o minuto em que aconteceu, eu preciso
do seu perdão para me livrar desse fardo.
- Acontece que, da mesma maneira que aconteceu somente uma
vez, poderia acontecer muito mais. Eu gosto muito de você, e sempre achei que
você seria o namorado dos sonhos de qualquer garota, o príncipe das histórias.
Porém, contos de fadas não existem. Eu te perdoo, mas não estou pronta para
reatar o nosso relacionamento. Tudo isso aconteceu muito rápido, eu devo
processar as informações.
- Tudo bem, saiba que sempre que precisar, eu estarei presente.
Você é uma pessoa muito importante na minha vida, foi você quem abriu os meus
olhos para esse mundo e que me fez enxergar a perfeição das coisas. Eu te
perdoei também, e confio em você. – ele se levantou e abriu a porta do meu
quarto – Te vejo logo.
- Até logo Matthew – ele saiu
Eu despenquei na cama, fiquei observando o teto até que o
toque do meu celular me tirou do transe. Peguei o celular e me deparei com mais
uma mensagem.
Eu avisei que iria
tirar cada coisa de você, primeiro o seu irmão, agora o seu namorado. Breve
terei o prazer de te ver sozinha.
Pela primeira vez eu tomei coragem para responder.
Quem é você? O que
você quer de mim e dos meus amigos?
A mensagem chegou instantaneamente.
Alguém que sabe
sobre o seu passado e cada detalhe escondido. Eu quero vingança!
Gelei ao ler essa mensagem, haviam tantos segredos por trás
do meu passado. Larguei o celular e fui tomar meu banho. Assim que saí, me
deitei e dormi no mesmo instante. O cansaço me dominou e pela primeira vez eu
tive certeza. Quando nascemos, nós choramos, choramos porque estamos chegando a
um mundo perdido e cruel, e desde pequenos sabemos que deveremos ser fortes, se
não formos, o mundo dará um jeito de nos tirar de campo.
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